quinta-feira, 15 de maio de 2014

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Querida amiga,

Sigo estudando. Uns dias mais, outros menos. Às vezes, sinto uma preguiça gostosa, viciante, que quer me levar para cama, neste doce período entre as 14:00 e as 16:00 horas, em que a casa é só minha, sem crianças, sem marido, sem ninguém para me apontar o dedo se eu passar duas horas embaixo de um edredom velhinho e aconchegante. Claro, ninguém além da minha própria consciência, que bate na minha cara, me lembra que tenho quase 40 anos, dois filhos para criar e nenhum centavo no banco. 

Às vezes, eu sinto raiva. De ainda não ter uma carreira decente, de ter que estar estudando nesta idade, de não entender nada de informática e de ter matado as aulas de Medicina Legal na faculdade para assistir Ana Maria Braga. Queria ter passado no concurso quando me formei e essas porcarias estavam todas frescas na minha cabeça. Então, fico falando para mim mesma que tudo vale a pena quando a alma não é pequena e que, de alguma forma, a vida tem uma razão - que eu não tenho a mínima ideia qual é - para tudo isso estar acontecendo só agora.

Às vezes, faço a She-ra e sinto um poder. E quero ler tudo, assistir tudo, aprender tudo, ficar acordada a noite inteira estudando, só para lembrar desses dias difíceis quando eu tiver passado e minha vitória parecer ainda mais esplendorosa. Porque nesta hora, eu acredito em tudo que me falam e acho mesmo que sou muito inteligente e esperta e que este concurso está no papo. E meu poder dura até lá pelas oito horas da noite, quando me dá uma moleza e tudo o que eu queria, de verdade, era um pastelzinho da esquina aqui de casa, para eu comer enquanto leio mais um capítulo do livro de sacanagem que minha cunhada me emprestou. Daí eu me lembro daquela parte de que eu não tenho nenhum centavo no banco e como uma banana mesmo, porque é só descascar e não vai sujar a pia da cozinha.

E às vezes, eu rezo e peço perdão por ser tão preguiçosa, mal agradecida e presunçosa e peço a Deus para fazer o que for melhor para mim, porque eu mesma, nesta altura do campeonato, já nem sei o que pedir. Quero meus pequenos bem, quero minhas contas em dia, quero um vestido novo para usar no sábado à noite quando for ao cinema com meu bem. Quero finalmente entender o que é uma memória RAM, o tal do Estado Democrático de Direito e a oração reduzida de infinitivo. 

Às vezes, quero tudo. Às vezes, nada. E entre uma coisa e outra, eu estudo.

Fernanda 

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